O Ministério da Educação (MEC) disponibiliza ao povo brasileiro um site que oferece informações ao mesmo tempo em que incentiva a colaboração do usuário, seguindo às boas práticas e tendências da Web2.0.
A NOIX como desenvolvedora deste projeto, foi representada por Daniel Leandro em entrevista à revista TI Digital do mês de maio de 2009, explicando todo o processo de desenvolvimento deste projeto.
Abaixo, você poderá conferir a entrevista na íntegra:
A grande aposta do momento é a colaboração. Dos sites de entretenimento aos portais de notícias, quase todos hoje oferecem meios para que os usuários possam participar ativamente. Em alguns casos, o público gera conteúdo, seja na forma de imagens ou de textos. Já outros sites contam com a experiência do visitante para se aprimorar cada vez mais. Em comum está a enorme vontade de todos de deixar de ser um mero expectador para ser parte da história.
O Ministério da Educação entendeu muito bem essa nova realidade. Para começar, fez pesquisa com os usuários para descobrir o que eles queriam encontrar no portal e levou todas as opiniões em consideração. A participação do público, no entanto, não parou por aí. Com a implantação da busca colaborativa, cada visitante pode interferir na maneira como o conteúdo ser exibido em pesquisas futuras, indicando os assuntos que tem mais relevância.
Para que o conceito de web 2.0 fosse plenamente adotado, o MEC contratou, por meio de uma licitação, a NOIX. A empresa, fundada em 2002 no Ceará, foi responsável por toda a reformulação do portal, que ganhou nova arquitetura de informação e diversas outras funcionalidades. Assim, o site do Ministério da Educação deixa de ser uma mera fonte de consulta para se tornar um instrumento de interação para todos os brasileiros. A TI Digital conversou com Daniel Leandro, Diretor Executivo da NOIX, que nos contou como foi todo esse processo de mudança.
TI: O portal do Ministério da Educação passou por uma grande reformulação. De quem partiu esta ideia? Quais as principais diferenças em relação ao site anterior?
DL: O próprio MEC solicitou a mudança do portal, pois há uma grande vontade política em se melhorar as métricas, a qualidade do que é disponibilizado. A assessoria de comunicação do ministério percebeu que a busca do conteúdo precisava ser mais eficaz. Além disso, era necessário atualizar a tecnologia utilizada. O portal anterior era feito em Joomla 1.0.15 e muitas informações estavam em um verdadeiro labirinto, a 7 cliques de distância do usuário. Passando para Joomla 1.5.9 foi possível adicionar diversos recursos de web 2.0 e encurtar os caminhos. As pessoas agora encontram e acessam mais facilmente aquilo que procuram. Só no máximo 3 cliques, apesar de o desejável ser apenas um.
TI: A decisão de se manter o Joomla! foi só porque este CMS já era utilizado antes? As outras opções disponíveis no mercado não se adequavam?
DL: Qualquer CMS poderia ser utilizado em um projeto como este do MEC, desde que fosse customizado. Analisamos todos os recursos oferecidos pelos gerenciadores de conteúdo existentes e percebemos que o Joomla era o mais completo, o que precisaria de menos customização e o que permitia mais integração de recursos de acessibilidade, web semântica e outros, tudo dentro de um mesmo gerenciador. Além disso, todos do Ministério da Educação estavam bastante familiarizados com a ferramenta, já que eles mesmos tinham sido responsáveis pela construção do portal anterior, considerado referência no meio. Tudo isto justifica a decisão de se continuar usando o mesmo CMS, mudando apenas para a versão 1.5.9, que já tinha todos os paths de segurança atualizados.
TI: Sobre a arquitetura do site, como foi definida a divisão do portal?
DL: Bom, nós utilizamos a metodologia Moebius de desenvolvimento e governança de portais, voltada principalmente para o planejamento estratégico e a arquitetura da informação. A assessoria de comunicação do MEC já possuía uma boa visão das necessidades do portal, que tem um enorme conteúdo. Foi feito um trabalho de pesquisa de campo, chamado definição de personas, que definiu o público e o dividiu em estudantes, pais e familiares, imprensa e fornecedores, entre outros. A todos estes perfis fizemos a mesma pergunta: o que você procura e o que você espera encontrar no portal do Ministério da Educação? Todos demonstraram interesse em usar mais serviços web, mas sentiam falta de uma navegação mais intuitiva. O público queria se reconhecer no portal. Antes, tínhamos, por exemplo, a divisão em ensino superior, ensino tecnológico, mas este conceito só está claro para quem está dentro das instituições. Para quem está fora, foi necessário quebrar este paradigma.
TI: E este público que ajudou na construção do portal tem como participar ativamente dele?
DL: Sim, claro! Depois de passarmos por uma primeira etapa, onde a web era apenas uma fonte de informação estética, e por um segundo estágio, onde as pessoas já procuravam outros serviços na rede, estamos hoje em um terceiro momento, o “eu na web”. Todos querem colaborar e interagir. O MEC trouxe este conceito para o novo portal de diversas maneiras. Uma delas o Meu Menu, onde o usuário pode guardar os conteúdos que consideram mais importantes. Um outro exemplo desta chamada web 2.0 é a busca colaborativa dentro do site. O usuário digita um termo para ser pesquisado e quando os resultados são mostrados ele pode classificar cada um deles, dizendo se tem maior ou menor relevância e até mesmo classificando como não tendo qualquer relevância. Estas informações são utilizadas nas respostas das pesquisas futuras.
TI: Além do Joomla, quais outras linguagens e bancos de dados foram utilizados neste projeto?
DL: Usamos php e MySQL. Existem alguns outros sistemas do MEC que são chamados pelo portal, mas na construção dele apenas Joomla, php e MySQL. Com relação ao Joomla, vale destacar que o CMS nativo, puro, equivale a aproximadamente 60% do que utilizamos no projeto. Para não precisarmos usar outras tecnologias, desenvolvemos todo o restante necessário. Os módulos que criamos especialmente para este caso serão em breve disponibilizados para download por toda a comunidade que utiliza o Joomla.
TI: A equipe envolvida no projeto, desde a concepção até a colocação do novo portal no ar, deve ter sido grande. Quantas pessoas participaram deste projeto e como se dividiram?
DL: Primeiro fizemos um trabalho de levantamento de requisitos, análise, definição de stakeholders e de personas. Desta etapa participaram jornalistas, especialistas em arquitetura da informação e em Joomla!, analistas de sistema e um gerente de projeto, totalizando 8 pessoas, entre pessoal da NOIX e do ministério. Após a etapa do planejamento, veio a execução, com um grupo de 14 pessoas que incluiu diretores de arte, web designers e programadores. A última fase foi a da migração para o novo portal, feita por 9 pessoas e que envolveu o gerente de projeto, especialistas em Joomla e webwriters.
TI: Dentro do site, existem a TV MEC e a TV Escola. Ambas utilizam flash, que demanda uma boa conexão para que o conteúdo seja exibido sem problemas. No entanto, banda larga ainda é um artigo de luxo para muita gente. Como fica esta questão? Há como ver o conteúdo desses canais de outra forma?
DL: Este foi mais um paradigma quebrado. Sempre que desenvolvemos algum projeto governamental, pensamos que temos que atender a quem não tem uma conexão muito privilegiada. Isto acaba sendo, muitas vezes, uma maneira de se excluir quem tem um bom acesso internet e até desestimula outros usuários que poderiam passar a ter conexões melhores. A instalação de banda larga nas escolas tem sido prioridade do MEC. Há algum tempo, eram instaladas antenas parabólicas, que dependiam de manutenção, gerando um alto custo. Agora, tudo está sendo substituído pela TV por IP.
O conteúdo da TV MEC pode ser baixado para ser exibido depois. A TV Escola, por enquanto, transmitida por streaming, mas há a possibilidade de gravar o que está sendo exibido para ser visto posteriormente. Em breve, será desenvolvido um conteúdo exclusivo para a TV Escola, que terá, inclusive, um site próprio.
TI: Falando em conteúdo, quem alimenta o portal? São servidores do próprio ministério?
DL: Sim, são os próprios servidores, tanto os concursados como os contratados. Todos eles receberam treinamento específico para utilizar o Joomla, principalmente os componentes novos desenvolvidos para o portal. A grande maioria dos funcionários já estava familiarizada com a ferramenta, mas, mesmo assim, receberam um manual desenvolvido especialmente para este projeto. Na próxima etapa, vão ter uma vídeo-aula à disposição também.
TI: No release de lançamento do portal, foram usadas palavras-chave como acessibilidade e usabilidade. De que maneira estas questões foram tratadas? Quais os recursos que facilitam o acesso ao conteúdo aos portadores de necessidades especiais?
DL: Em primeiro lugar, importante lembrar que existe uma lei (10.098, art. 17) que determina que todo produto do governo deve ser acessível e prover recursos para quem tem necessidades especiais. Além disso, a usabilidade primordial na metodologia Moebius. Validamos todo o portal nos padres W3C e nos mecanismos DaSilva e Ases, ferramentas que avaliam a acessibilidade. Testamos o portal exaustivamente em leitores de tela, como o DosVox, usamos conceitos de semântica dentro do código HTML e incluímos recursos de aumento e diminuição de fontes e de alto contraste.
TI: E quanto ao SEO? Qual a importância deste conceito para o portal do Ministério da Educação?
DL: Será algo fantástico para esse momento de web 2.0 que estamos vivendo. Se a ideia que o usuário colabore, nada melhor do que medir o índice de satisfação, os conteúdos mais acessados, os horários de pico. Estas métricas são importantíssimas para saber o nível de aceitação do usuário em relação ao projeto. Um exemplo é o ProUni. Na época de inscrições chegamos a 2.500 acessos simultâneos. Precisamos saber se os usuários conseguem achar a ficha de inscrição facilmente, onde demoram mais, onde estão os gargalos. Tudo isto facilita a identificação de problemas que devem ser corrigidos nas próximas versões do portal.
TI: Já foi possível detectar o impacto deste projeto no público?
DL: Já, sim. Os acessos aumentaram bastante, assim como o interesse dos usuários. Agora, eles não apenas navegam, como participam, interagem, interferem no conteúdo e na maneira como ele é exibido. Classificam a relevância dos resultados das pesquisas, colaborando para que cada vez mais a busca seja aperfeiçoada.
TI: Para finalizar, o projeto já está concluído ou tem mais novidades vindo por aí?